MPF investiga surto de diarreia em Aldeia Maxakali e denúncias de racismo em atendimento

O Crescente Surto de Diarreia entre os Maxakali

Atualmente, um crescente surto de diarreia está afetando crianças na Aldeia Maxakali, que se localiza em Teófilo Otoni, no Vale do Mucuri, Minas Gerais. Desde dezembro, foram relatados 33 casos da doença, incluindo a trágica morte de um menino de apenas dois anos, cujo falecimento agora está sob investigação. As lideranças da comunidade indígena relataram ao Ministério Público Federal (MPF) alegações de negligência, discriminação e racismo no atendimento oferecido pela rede pública de saúde local.

O primeiro caso da enfermidade foi confirmado no dia 16 de dezembro na Aldeia Escola Floresta Maxakali, mas somente em 7 de janeiro foi emitido um alerta epidemiológico, após o número de notificações ter aumentado para 23. Curiosamente, três dias antes da emissão do alerta, uma criança com sintomas de diarreia faleceu, fato que despertou a urgência nas autoridades de saúde.

A Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais (SES) esclareceu que a causa do óbito foi devido a complicações respiratórias, e que ainda não havia sido encontrado um vínculo causal imediato com o surto diarreico. É importante ressaltar que a criança havia sido diagnosticada previamente com uma doença diarreica aguda, mas o caso tinha sido registrado como curado em 1º de janeiro de 2026.

surto de diarreia em Aldeia Maxakali

Investigação do MPF e Suas Implicações

O MPF, por meio do procurador Edmundo Antonio Dias Netto, está conduzindo uma investigação abrangente sobre as denúncias de racismo e negligência no atendimento médico. O procurador destacou a importância de apurar não apenas a origem do surto de diarreia e as circunstâncias em torno da morte da criança, mas também a possível ocorrência de crimes como omissão de socorro. Reuniões foram promovidas entre as lideranças Maxakali e as autoridades nos dias 9, 13 e 14 de janeiro, com o intuito de discutir planos de ação integrados para enfrentar esta crise sanitária.

Condições de Saúde e Saneamento na Aldeia

Durante as reuniões, as lideranças Maxakali expressaram suas preocupações sobre as precárias condições de moradia e a falta de saneamento básico que a comunidade enfrenta. A ausência de banheiros adequados nas residências e a condição do posto de saúde local, que opera com equipamentos insuficientes e horário limitado, intensificam a crise de saúde pública que afeta a população.

Além disso, as professoras Vanessa Tomaz e Rosângela de Tugny, das universidades federais de Minas Gerais e da Bahia, respectivamente, chamaram atenção para as altas taxas de desnutrição na comunidade, o que complica ainda mais a situação de saúde das crianças. A escassez de recursos e a degradação ambiental na região, próxima ao poluído Rio de Todos os Santos, contribuem para a vulnerabilidade social que as famílias Maxakali enfrentam.

Testemunhos de Discriminação no Atendimento em Saúde

As lideranças indígenas relataram vivências de discriminação e racismo durante os atendimentos na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Teófilo Otoni. Há casos documentados de profissionais de saúde que desacreditam as informações fornecidas pelos pais sobre a saúde de suas crianças, além de atitudes ofensivas que incluem a simulação da língua materna dos Maxakali.
Em um contexto de crise, o atendimento adequado é vital, e as lideranças exigem respeito e dignidade no trato com os membros da comunidade. As denúncias foram formalizadas em atas entregues ao MPF, evidenciando a urgência dessa questão.



Reação da Secretaria Estadual de Saúde

A resposta da Secretaria Estadual de Saúde à crise foi a implementação de diversas ações emergenciais. A SES anunciou o reforço de médicos e enfermeiros na região, além da realização de busca ativa nas residências. Amostras de água estão sendo coletadas para analisar a qualidade da água, com a promessa de que os reservatórios darão suporte na ação de controle do surto.

A SES reafirmou que não foram encontradas alterações significativas na qualidade da água e que a manutenção dos reservatórios foi antecipada por precaução. Trabalhando em parceria com a Prefeitura de Teófilo Otoni, a SES/MG também mobilizou ações de saúde ambiental e controle de zoonoses, incluindo vacinas e tratamento para os animais da comunidade.

O Papel do DSEI na Situação Emergencial

O Distrito Sanitário Especial Indígena (DSEI) também está ativamente envolvido na situação, conduzindo investigações e ações de cuidado nas comunidades. Em resposta ao surto, a equipe do DSEI está em campo, tentando avaliar a saúde da comunidade e as necessidades emergenciais no que diz respeito à atenção médica e prevenção de doenças.

Desnutrição e Seus Efeitos no Povo Maxakali

A desnutrição se apresentou como um dos principais fatores que agravam a saúde das crianças Maxakali. Muitas famílias da aldeia enfrentam graves dificuldades financeiras, o que resulta em uma dieta inadequada e vulnerabilidade nutrição. O risco de complicações em casos de doenças simples aumenta significativamente, colocando em perigo a vida de muitos pequenos.

O estudo da Universidade Federal de São Paulo, intitulado “Genocídio renovado na degradação sanitária e ambiental entre os Tikmũ’ũn/Maxakali em Minas Gerais, Brasil,” revelou que a mortalidade infantil na comunidade Maxakali tende a ser de 30 a 40 vezes maior do que a média em municípios próximos, mesmo aqueles com baixos índices de desenvolvimento humano.

A Mobilização das Lideranças Indígenas

A mobilização ativa das lideranças indígenas Maxakali é fundamental neste momento de crise. Essas lideranças têm se reunido com autoridades de diversas esferas para garantir que as necessidades da comunidade sejam atendidas. As reuniões foram uma oportunidade para discutir o impacto das políticas públicas na saúde e a necessidade de implementação de planos estruturais.

A Importância de Medidas Estruturais de Saúde

As lideranças enfatizam que apenas ações emergenciais não são suficientes. É preciso que haja um plano estratégico de saúde voltado para o povo Maxakali, que envolva a construção de infraestrutura de saúde adequada, capacitação de profissionais e ferramentas para garantir um atendimento digno e respeitoso.

A Comunidade em Busca de Respostas

A comunidade Maxakali está em busca urgente de respostas e um planejamento que leve em conta suas vozes e necessidades. Mais do que assistência temporária, as reivindicações buscam a permanência de políticas públicas efetivas e sustentáveis que garantam a saúde e a dignidade de todos os seus membros. Na luta por um atendimento mais humano e respeitoso, a comunidade espera que o MPF leve a sério as denúncias de racismo e negligência comprometida a sua saúde.



Deixe um comentário